Direitos Humanos

Foto: Roberta Carvalho/ Manda Notícias
Por Carolina Rosa
Na última quinta-feira, 27, o CDHEP(Centro de Direitos Humanos e Educação Popular do Campo Limpo), ONG que há 40 anos articula e realiza ações em defesa de direitos, abriu suas portas para o “Boteco de Brasileiro de Políticas de Drogas”, projeto organizado pela Iniciativa Negra, que tem a missão de debater temas urgentes e necessários.
O evento, primeiro realizado na periferia da zona sul, começou com mesa de debate sobre “Trabalho e Vida na Periferia” – abordando a busca por dignidade, segurança e direitos, temas urgentes para a sociedade, principalmente, para corpos racializados e periféricos que vivem à mercê dos desmandos das políticas de segurança.
Compondo a mesa de debate, as iniciativas convidaram para mediação Luana de Oliveira, mestranda em sociologia pela UNICAMP, educadora do CDHEP e articuladora do Fórum em Defesa das Mulheres, foram convidadas também Fernanda Gomes, mestranda em humanidades pela USP, feminista integrante do coletivo Luana Barbosa e Periferia Segue Sangrando, Edjane Alves, mãe, atuante nos movimentos sociais periféricos do seu território e gerente do CAE (Conselho de Alimentação Escolar) e Thiago Torres, cientista social cria da Brasilândia periferia da zona norte, cientista social pela USP e um importante jovem ativista, com influência nas redes sociais e YouTube.
Os convidados foram provocados a refletir como as políticas públicas de segurança tem impactado a vida nas periferias, quais são os efeitos das práticas proibicionistas de drogas, como o racismo estrutural se manifesta na violência policial e no sistema de justiça, assim como pensar soluções estruturais e transformadoras, alternativas para defender a segurança e direitos nas periferias e como o investimento na cultura e direitos básicos como educação, saúde e infraestrutura pode mudar a vida dessas pessoas.
Fernanda Gomes, falou da importância de ter uma atividade como essa acontecendo no Capão Redondo, em um espaço repleta de pessoas do território, já que os debates incluindo autoridades são em sua maioria distantes dos moradores e acadêmicos periféricos.






Fotos: Roberta Carvalho/ Manda Notícias
“Eu tenho certeza que seria fundamental a presença dos “boy” aqui no CDHEP, por outro lado, a gente sabe que na nossa experiência para falar com eles, sempre temos que ir até que lá eles sempre usam isso, ‘querem falar de segurança, vem até o meu gabinete’, nos afastando do debate”, disse Fernanda.
Direitos essenciais para quebrada
Thiago Torres, comentou em sua fala sobre a importância de trazer debates como o de segurança pública e políticas de drogas para as periferias, popularizando e fomentando o debate sobre as pessoas que são cotidianamente são afetadas pela violência do estado.
“É extremamente importante fazer ações e manifestações políticas nas periferias, trazendo o debate para as margens e principalmente para as pessoas que sofrem com a efetividade do estado na necropolítica que mata e encarcera diariamente jovens periféricos. Estou feliz e honrado de estar aqui falando com a juventude e também com os mais velhos, em um território tão importante para a identidade do ser periférico”, reforçou.
Edjane Alves, trabalhadora dos serviços de assistência social, enfatizou como o debate sobre o uso abusivo de substâncias químicas é indispensável para o território: “Mesmo trabalhando e estando envolvida na assistência social há vários anos, só foi na academia que tive contato com debates sobre práticas e políticas antiproibicionistas e de redução de danos, apesar de ter tido contato com drogas desde cedo. Sabemos que essa é a realidade que vivemos, ainda crianças temos a liberdade, mesmo que inconsciente, de fazer o uso do álcool e drogas químicas como cigarros e até cocaína”.
Luana de Oliveira, educadora popular do CDHEP, falou sobre o desafio de popularizar o debate de segurança pública no território: “A meta é normalizar esses diálogos na mesa do café da manhã das famílias de quem moram aqui no Capão, no Campo Limpo, no Jardim Ângela”.
Ela contou que a proposta de realizar o “Boteco de Brasileiro de Políticas de Drogas” foi prontamente aceito pela ONG , pois a equipe já realiza esse enfrentamento, acompanhando casos de violência, no entanto, é difícil realizar esse trabalho sozinho, pois a sensação é de que estão apenas “enxugando gelo”.
“O CDHEPP tem se esforçado para realizar essa atuação de maneira efetiva ao longo do tempo, conseguindo avanços ao compor comissões e comitês que foram estabelecidos, para elaborar relatórios e acompanhar as denúncias relacionadas às letalidades ocorridas nas operações, como a “Operação Escudo” e a “Operação Verão”. Atualmente, esse trabalho é intensificado no território, com uma participação ativa no Fórum em Defesa da Vida e no Fórum em Defesa da Mulher, além de buscar enfrentar as questões para além do simples acompanhamento dos casos”, afirmou Luana.
Desde 2019, o CDHEP acompanha mais de 250, sendo a maioria de famílias que sofreram algum tipo de violência estatal, como letalidade policial, encarceramento ou casos de pessoas forjadas. A atuação vai além do acompanhamento dos casos, englobando o debate, a política pública e a incidência política.