segunda-feira, janeiro 26

Não foi a chuva que matou Maria Deusdete e Marcos, foi o descaso do poder público

Corpo de Bombeiros nas buscas pelos corpos de Maria Deusdete e Marcos da Mata | Foto: Abraão Cruz/TV Globo

Por Gisele Alexandre

Era 17h31, do dia 16 de janeiro, sexta-feira, quando recebi o aviso da Defesa Civil no meu celular sobre as fortes chuvas na Capital. Cerca de 40 minutos depois, recebi o primeiro vídeo, era da minha mãe dizendo que a rua dela, mais uma vez, tinha virado um rio.

Minha mãe mora há 37 anos na Cohab Adventista (Rua Marmeleira da Índia x Rua dos Mercantéis), passei minha infância e adolescência vendo o córrego Moenda Velha transbordar, levando tudo que encontrava. Foi lá que Erick Silva, jovem de 24 anos, teve seu carro levado pelas águas do córrego em 06/02/2025, seu corpo nunca foi encontrado.

Tenho certeza que o caso de Erick não foi o primeiro, mas conquistou relevância midiática, principalmente por conta das mídias comunitárias, como Capão Atento, Capão News e Vila Andrade News, que têm feito um papel importante utilizando as redes sociais para levar a público casos que antes não eram noticiados.

Mas, voltando à janeiro de 2026, infelizmente, um novo caso “ganhou” as manchetes dos portais de notícias, trazendo, mais uma vez, uma triste história: o carro do casal Maria Deusdete da Mata Ribeiro (67) e Marcos da Mata Ribeiro (68), que circulava na Av. Carlos Caldeira Filho no dia 16/01, foi tragado para dentro do córrego Morro do S. O corpo de ambos foi encontrado no Rio Pinheiros: o de Marcos foi localizado dia 18/01, dois dias depois do temporal, nas proximidades do Parque Burle Marx; o de Maria Deusdete no dia 19/01, próximo do Autódromo de Interlagos.

Os dois casos citados, em 2025 e 2026, aconteceram em um intervalo de 375 dias, ou seja, menos de um ano se passou do caso de Erick e a tragédia anunciada se repetiu, agora levando duas vidas.

Pra mim, não foi a chuva que matou Maria Deusdete e Marcos, foi o descaso do poder público!

Sobre as providências e o silêncio oficial das autoridades

Na manhã seguinte ao temporal, 17/01, entrei em contato com a comunicação da Subprefeitura do Campo Limpo, via WhatsApp solicitando informações oficiais, e foi isso que recebi:

“​Agradecemos o contato e a preocupação com o território. Informamos que a Subprefeitura Campo Limpo está com nossas equipes nas ruas desde o início das ocorrências, trabalhando intensamente para mitigar os estragos causados pelas fortes chuvas.

Além das frentes de zeladoria e limpeza, temos equipe na sede da Subprefeitura realizando o atendimento e acolhimento das famílias atingidas, prestando todo o suporte necessário neste momento de urgência. A supervisora de Habitação junto com a defesa civil também estão visitando áreas atingidas.”

No mesmo dia, fiz um pedido formal, por email, para SECOM (Secretaria Especial de Comunicação) com cópia para SPObras (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras) e a SIURB (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras), solicitando “entrevista coletiva na segunda-feira, 19 de janeiro, com o subprefeito Ricardo Bittar e demais autoridades envolvidas no atendimento das pessoas impactadas pelas chuvas e também nas ações de prevenção a enchentes, problema recorrente e histórico no território do Capão Redondo, Campo Limpo e Vila Andrade.” 

Nos bastidores, sabe-se que a atual gestão municipal tem como premissa não atender a imprensa, o que pra mim é mais que absurdo. O atual subprefeito do Campo Limpo, Ricardo Bittar, tem uma boa relação com as mídias comunitárias, mas as conversas são sempre in off, ou seja, não podemos usar a fala do agente público, uma vez que a SECOM não autoriza a entrevista. Para surpresa de ninguém, o pedido de entrevista foi rejeitado sem nenhuma justificativa plausível.


A resposta que recebi em 18/01/2026, às 19h01:

No momento não será possível atender o pedido de entrevista. Segue nota sobre as ações na região:
A Subprefeitura Campo Limpo informa que, em 2024, foi instalado um guarda-corpo na área da margem do córrego na Avenida Carlos Caldeira Filho. No entanto, a estrutura foi vandalizada e furtada. Na madrugada deste sábado (17), equipes estiveram no local e instalaram blocos de concreto no trecho como medida emergencial de proteção. 

A avenida recebe serviços frequentes de zeladoria, intensificados durante o período de chuvas. Na manhã de sexta-feira (16), equipes realizaram a limpeza e retirada de detritos do Córrego Morro do S. As ações de limpeza, desobstrução e manutenção de galerias e córregos seguem de forma contínua na região. Seguem em anexo imagens do trabalho de zeladoria, do guarda corpo e dos blocos de concreto instalados.

Obras na região

Como medida estrutural, a Prefeitura de São Paulo, por meio da SPObras, está investindo R$ 261,4 milhões na construção de um reservatório de contenção de cheias no Capão Redondo e na canalização de 3 km do córrego Água dos Brancos. As intervenções beneficiam a bacia do Morro do S e têm como objetivo reduzir enchentes na Avenida Ellis Maas e no entorno do Parque Santo Dias. A obra vai beneficiar 870 mil moradores dos bairros Capão Redondo, Campo Limpo, Vila Andrade e Jardim São Luís e está prevista para ser concluída até junho deste ano. 

Para aumentar ainda mais a capacidade do sistema de drenagem da região do Campo Limpo, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb) publicou, em 26 de dezembro, o edital para contratação das obras do reservatório do Córrego Freitas. Os envelopes serão abertos no dia 5 de fevereiro. 
Com investimento previsto de R$ 204,9 milhões, o equipamento terá capacidade para armazenar até 110 mil m³ de água (o equivalente à 44 piscinas olímpicas). Cerca de 1 milhão de pessoas serão beneficiadas nos distritos do Campo Limpo, Capão Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luís.


São várias as perguntas que ficaram após receber essa nota, aqui vão algumas delas:

  1. Por que o guarda-corpo na área da margem do córrego na Avenida Carlos Caldeira Filho, que a Prefeitura alega ter sido furtado, não foi recolocado antes?
  2. Se a capacidade de armazenamento total será de 110 mil m³ de água e a obra tem previsão de ser entregue em julho deste ano, qual é a capacidade hoje? Como é possível explicar a quantidade de água acumulada em frente a obra no dia 16/01?
  3. A obra vai beneficiar 870 mil moradores, mas quantos ela beneficia atualmente? Pelo que sabemos, ela só tem prejudicado a população até agora.  
  4. Qual o tamanho do projeto previsto para o reservatório do Córrego Freitas? Ele prevê remoção de quantas famílias? Para onde elas serão realocadas?

Perceba que estamos falando de um problema que envolve vários córregos e bacias, isso porque, nosso território foi construído em cima de rios que atravessam vários bairros. Em 2021, já tratei desse assunto em uma reportagem em áudio chamada “Moradores se mobilizam por moradia digna e pela canalização do Córrego dos Freitas”, onde a arquiteta e urbanista, Ana Cristina Moraes, explica que não basta canalizar os córregos, é preciso pensar em um projeto habitacional que garanta moradia digna para as famílias em áreas de enchentes. Te convido a ouvi-lo!

Obras do Piscinão Capão Redondo de 28/08/2024 | Foto: Sergio Barzaghi/ Governo do Estado de São Paulo

Mobilização cidadã e o Conselho Participativo Municipal do Campo Limpo

Em meus quase 20 anos de jornalismo periférico, estive em muitas reuniões e audiências públicas. Porém, desde a pandemia, estive afastada dessa articulação importante do território, principalmente por assumir outras frentes de trabalho. Mas, na última quarta-feira, 21/01, estive na 12º Reunião Plenária Ordinária do Conselho Participativo Municipal do Campo Limpo, já que o tema não poderia ser outro se não as ações de prevenção e mitigação de danos causados pelas enchentes que assolam o território há décadas. 

Ao chegar na Subprefeitura, fiquei surpresa em ver vários moradores e comerciantes organizados e empenhados em cobrar respostas. Eles eram, majoritariamente, vizinhos da obra gigantesca popularmente chamada de Piscinão, localizado na Av Ellis Maas, via importante do Capão Redondo.

Aqui você confere um vídeo de 08/08/2024, publicado no perfil oficial do prefeito Ricardo Nunes, onde ele explica o projeto e diz que a obra do Piscinão do Capão Redondo estava acelerada, dando como previsão de entrega em maio de 2025, que sabemos não aconteceu até hoje.

O buraco enorme, chamado tecnicamente de reservatório para contenção das cheias, vem sendo construído desde 2022. Apesar da grande estrutura parecer estar próxima de sua finalização, praticamente não ajudou em nada em 16 de janeiro. Os vários vídeos publicados nas redes sociais por moradores e pelas mídias comunitárias, comprovam isso. Bem em frente ao Piscinão, a avenida virou um rio.

Muito foi dito nessa reunião, mas, fiquei surpreendentemente satisfeita em saber que a Subprefeitura do Campo Limpo, por meio do seu Comitê Participativo, tem acompanhado e cobrado atualizações sobre a obra. Através da consulta de documentos públicos, descobri que no dia 07/01/2026, ou seja, 9 dias antes do temporal que estamos tratando, a Subprefeitura deu entrada em um processo administrativo (6032.2026/0000056-7), que reitera oito ofícios enviados antes, com pedidos diversos.

Entre eles, destaco aqui o Ofício 096_2025/2026, datado de 08/11/2025, com o assunto “Solicitação de informações sobre as obras do reservatório/piscinão Ellis Maas”. Entre diversos pedidos, que você pode ler na íntegra clicando aqui, em trecho menciona “relatos de mini explosões realizadas duas vezes ao dia, que estariam causando danos estruturais em residências, especialmente no Condomínio Parque das Árvores”.


Além disso, outro pedido importantíssimo, diz respeito a outro local citado no início deste texto: “Outra demanda recorrente refere-se à necessidade de intervenção no Córrego Moenda Velha, que prevê a instalação de gradil/guarda-corpo e a implementação de calçada, no trecho entre a Rua Marmeleira da Índia e a Rua dos Mercantéis, localizado à 700 metros da obra do piscinão.”


Ou seja, a Subprefeitura do Campo Limpo, por meio de seu Comitê Participativo, fez seu papel ao cobrar, meses antes das chuvas de verão começarem, a SIURB (Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras), mas o que essa Secretaria fez de lá pra cá? Nada!


São muitos processos, ofícios, contratos, informações burocráticas que nem todo jornalista tem interesse em investigar. Eu tenho e pretendo continuar fazendo isso até que a obra milionária seja entregue e, efetivamente, ela cumpra seu papel.

Por hora, o que posso dizer é que a Prefeitura de São Paulo, gerida atualmente por Ricardo Nunes, que inclusive já morou na região, é quem deve responder por todas as mortes, desaparecimentos, desalojamentos e outros transtornos causados pelas enchentes.  

O Consórcio CG-JZ Carlos Caldeira, venceu a licitação e é responsável pelo contrato do projeto que inclui a construção do reservatório; a canalização de 3 quilômetros do Córrego Água dos Brancos e o prolongamento da Avenida Carlos Caldeira Filho em 3,3 quilômetros.


De acordo com informações oficiais, as obras de drenagem previstas neste contrato (reservatório e canalização) tinham valor inicial de R$ 87,2 milhões em 2015, passando para R$ 261,4 milhões em valores atualizados para 2025, conforme os índices previstos em contrato e aditamentos. A previsão de entrega do reservatório foi alterada para junho deste ano, por conta de rochas no fundo da estrutura exigirem mais tempo do que o inicialmente estimado. 

Já o prolongamento da Avenida Carlos Caldeira Filho, ainda não foi iniciado porque depende das desapropriações necessárias. 

Fico por aqui, mas volto, assim que possível, com atualizações. Tô de olho!


Autorizo a reprodução deste artigo, reservando-me o direito autoral de ser creditada na republicação.

Gisele Alexandre: Jornalista, educomunicadora, articuladora cultural e gestora de projetos. Criada no Capão Redondo, periferia da capital paulista, atua há cerca de 20 anos no jornalismo periférico. É diretora-executiva da Pauta Periférica e idealizadora e editora-chefe do Manda Notícias, coordenadora pedagógica do Clube de Criadores EduCapão e produtora executiva do Festival CultCom.

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