
Foto de agosto de 2020, quando Gisele Alexandre começou a gravar o Manda Notícias pelo celular.
Por Gisele Alexandre
Há cinco anos, em 23 de março de 2020, enviei um áudio de 1 minuto e 48 segundos para uma lista de transmissão no WhastApp. Depois disso, tudo mudou na minha vida. Você pode até duvidar, mas essa é a mais pura verdade!
Já falei algumas vezes, que criei o Manda Notícias no momento em que tive mais medo. Há cinco anos, a pandemia tinha chegado com força no Brasil, e eu estava com muito medo de adoecer, mas, estava ainda mais preocupada com a saúde dos meus pais idosos, do meu filho de 8 anos e das comunidades vulneráveis do meu território, o Capão Redondo.
Além do medo da doença, ainda vivia todos os desafios do isolamento. Naquela época, meu filho estava no segundo ano do ensino fundamental, ou seja, dava os primeiros passos em seu processo de alfabetização. Assim como milhares de famílias brasileiras, tivemos que aprender juntos a estudar online, tarefa nada fácil. Pedro recebeu o tablet da Prefeitura e passei a acompanhá-lo nas tarefas da escola. Ao mesmo tempo, igualmente o que acontecia em diversas casas, meu casamento, que já não era saudável, ficou insalubre.
Tudo isso acontecia ao mesmo tempo, em que eu coordenava a área de comunicação de uma ONG, trabalhava como repórter freelancer e, ainda, participava ativamente de uma articulação nacional como outros comunicadores de territórios periféricos, favelados, quilombolas e indígenas.
Foi vivendo tudo isso, em um apartamento de 50 metros quadrados, que criei o Manda Notícias. Meu objetivo era muito claro: combater a desinformação, minimizando as consequências da pandemia para os moradores do Capão Redondo e arredores.
Quando mandei o primeiro áudio, recebi uma enxurrada de mensagens de gente me parabenizando pela iniciativa, o que me surpreendeu no primeiro momento. No dia seguinte, já tinha a certeza que aquele trabalho poderia fazer a diferença, por isso segui em frente.
Equilibrando as tarefas da maternidade, as tristezas de um casamento tóxico em ruínas e o medo de ter alguém próximo a mim contaminado pela doença, eu me agarrei na missão de informar. Criava e enviada três notícias por áudio semanalmente, não falhei nenhum dia. A audiência começou a crescer depressa e o retorno era instantâneo, como se estivessem esperando pela minha mensagem. Professoras começaram a utilizar meus conteúdos em aulas online, e meus amigos e amigas comunicadores me enviavam dicas e sugestões para o projeto melhorar.
O primeiro ano foi extremamente desafiador, mas o retorno daquela trabalho voluntário e sem grandes pretensões, me inspirou a querer seguir em frente e me aperfeiçoar. O Manda Notícias, que surgiu sem nome e como um zapcast (podcast via WhatsApp), se mostrou relevante logo no primeiro mês, e ganhou destaque como um projeto de impacto social pouco tempo depois, reconhecido pela imprensa nacional e internacional.
Uma semana depois do lançamento do Manda, a Associação de Jornalismo Investigativo (Abraji) publicou uma reportagem sobre as estratégias dos comunicadores periféricos durante a pandemia, e o Manda Noticias foi um dos projetos citados. No mês seguinte, saímos no site americano Slate, em uma reportagem sobre o mesmo tema.
Só em 2020, fui entrevistada para mais de 12 reportagens. No ano seguinte, o destaque na imprensa continuou. Uma das matérias que mais repercutiram teve o título “Jornalista noticia pandemia via WhatsApp para moradores do Capão Redondo-SP” que saiu no UOL no mês de abril de 2021.
O Manda Notícias nasceu no WhastApp e migrou para as principais plataformas de áudio e para as redes sociais. Ao longo desses cinco anos, fui entendendo e aprendendo a fazer podcast. Fiz muitas reportagens e séries inéditas em áudio. Em 2023, retomei meu trabalho no jornalismo cultural (minha origem) e hoje penso que o Manda Notícias pode ser muito mais.
O Manda é um sonho que eu nem sabia que tinha. Esse projeto me fortaleceu nas minhas mais diversas camadas. Foi tocando esse projeto que me descobri uma pessoa melhor e mais forte. Em 2022 consegui me divorciar e retomar uma parte importante de mim que estava “inativa”. Em 2023, tive a coragem de abrir minha própria produtora e, desde então, tenho me desafiado a ser uma profissional que viabiliza o sonho de outras pessoas.
Tanta coisa me aconteceu nos últimos cinco anos. Foram muitos obstáculos e alguns empurrões, mas nenhum deles foi forte suficiente para me derrubar.
Nesse aniversário, quero deixar registrado o agradecimento à minha família, aos ouvintes e aos companheiros e companheiras da comunicação que não me deixaram desistir. Sigo em frente, atenta e forte, asfaltando caminhos e criando atalhos para que outras e outros comunicadores periféricos, possam criar seus próprios sonhos e, quem sabe, dar continuidade a tantos projetos que comecei, depois do Manda.
OBRIGADA! Que os próximos cinco anos sejam leves e prósperos!