{"id":865,"date":"2024-11-18T09:17:05","date_gmt":"2024-11-18T12:17:05","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/?p=865"},"modified":"2025-05-20T13:42:25","modified_gmt":"2025-05-20T16:42:25","slug":"o-jesus-punk-de-sean-murphy-e-a-mercadoria-da-personalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/2024\/11\/18\/o-jesus-punk-de-sean-murphy-e-a-mercadoria-da-personalidade\/","title":{"rendered":"O Jesus Punk de Sean Murphy e a Mercadoria da Personalidade"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"666\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/capa-2-666x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-868\" style=\"width:399px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/capa-2-666x1024.jpg 666w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/capa-2-195x300.jpg 195w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/capa-2-scaled.jpg 1665w\" sizes=\"(max-width: 666px) 100vw, 666px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:#0693e3\" class=\"has-inline-color\">Coluna Anti-Hero\u00edca<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por Matheus Polito Monteiro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Qual \u00e9 a mercadoria perfeita, para empresas que trabalham no meio cultural, sen\u00e3o seus artistas, seus astros de TV, cinema, m\u00fasicos, apresentadores e\u00a0a\u00ed\u00a0por\u00a0diante? Por\u00e9m, h\u00e1 um problema percept\u00edvel para a contradit\u00f3ria \u201cind\u00fastria cultural\u201d, seus produtos s\u00e3o perec\u00edveis, e podem sair de moda mais r\u00e1pido do que seu sucesso mete\u00f3rico, da\u00ed ent\u00e3o surge a busca incans\u00e1vel desses produtores da grande m\u00eddia em achar um artista que nunca saia de moda, que garanta sempre esse sucesso mete\u00f3rico, uma busca sem fim e que est\u00e1 apenas no mundo das ideias.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou ser\u00e1 que n\u00e3o? Se pararmos para pensar h\u00e1 sim uma figura que transpassa o tempo garantindo sucesso estrondoso, vendas mete\u00f3ricas e uma legi\u00e3o de f\u00e3s mais fan\u00e1ticos do que a maior entusiasta da Taylor Swift, Jesus Cristo o salvador da humanidade, o messias. Por\u00e9m, h\u00e1 um problema n\u00edtido, como trazer Jesus de volta a vida e garantir que sua empresa v\u00e1 lucrar em cima da sua personalidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019 uma emissora de televis\u00e3o resolveu essa quest\u00e3o e criou um programa de TV extremamente pol\u00eamico: um reality show que acompanharia o crescimento de um clone de Jesus Cristo! Pessoas se revoltaram com o sacril\u00e9gio tomaram as ruas, outras acreditaram que seja finalmente a segunda vinda Dele, outras queriam acompanhar apenas o entretenimento e a comunidade cient\u00edfica ficava alvoro\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o lembra disso? Bom, isso realmente n\u00e3o aconteceu na vida real, se trata na verdade da premissa de um quadrinho que come\u00e7ou a ser lan\u00e7ado no extinto selo Vertigo em 2012, que chegou ao Brasil em 2013 nas p\u00e1ginas da revista Vertigo publicada pela Panini e posteriormente a hist\u00f3ria foi compilada em uma edi\u00e7\u00e3o encadernada, \u201cde luxo\u201d, com alguns extras sobre o autor e a concep\u00e7\u00e3o da obra. Se trata da obra do quadrinista americano Sean Murphy, Punk Rock Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>O quadrinho abre com um atentado a vida de uma fam\u00edlia de irlandeses, aparentemente envolvidos com o Ex\u00e9rcito Republicano Irland\u00eas (IRA), onde apenas a crian\u00e7a sobrevive e \u00e9 levada para ser criada pelo tio, que \u00e9 um militante e paramilitar das for\u00e7as do IRA, e ent\u00e3o salta no futuro em que vemos a cria\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de Show de Truman Gospel. Uma cientista afirma que recebeu um DNA de 2000 mil anos de uma emissora de TV, da qual afirmava se tratar do DNA do pr\u00f3prio Jesus Cristo, e a emissora pretende ent\u00e3o clonar Jesus e fazer um reality show com esse clone.<\/p>\n\n\n\n<p>O enredo traz uma hist\u00f3ria cheia de constantes reviravoltas, flashbacks de personagens, principalmente de Thomas, a crian\u00e7a que sobreviveu ao atentado no come\u00e7o do quadrinho e agora \u00e9 um ex-militar do IRA, que passou a colaborar com o governo brit\u00e2nico e agora trabalha como guarda-costas do menino Cris (o clone de JC), e sua m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso dizer que, em uma primeira leitura o quadrinho, pode parecer exagerado, sempre com a\u00e7\u00e3o demais em suas p\u00e1ginas para mostrar seu personagem <em>badass<\/em> em a\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, at\u00e9 mesmo expl\u00edcito demais em seu argumento, sem espa\u00e7o para sutileza, com falas dignas de adolescentes rec\u00e9m declarados ateus que acabam se tornando t\u00e3o pregadores quanto os pastores evang\u00e9licos, em seus c\u00edrculos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, em uma segunda leitura o quadrinho parece bem coeso, pois a hist\u00f3ria trata justamente de um adolescente rec\u00e9m desiludido com a religi\u00e3o, e que tem todos os motivos para odi\u00e1-la. E at\u00e9 mesmo a a\u00e7\u00e3o, que outrora parecia enfiada no roteiro porque precisa de a\u00e7\u00e3o, se justifica. Afinal, o terrorismo crist\u00e3o \u00e9 uma realidade que vivenciamos em governos de extrema-direita as elei\u00e7\u00f5es de 2024 t\u00e3o a\u00ed para nos lembrar disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 preciso dizer que esse quadrinho tem algo a mais, algo que pode passar despercebido em uma primeira, segunda, ou at\u00e9 mesmo terceira leitura, pois n\u00e3o \u00e9 algo que o roteiro se preocupa em aprofundar, mas ainda assim est\u00e1 l\u00e1: a Lobotomia Adolescente!<\/p>\n\n\n\n<p>Em teoria estamos acompanhando a pessoa mais popular da humanidade sendo patenteada como marca e mercadoria de uma emissora de televis\u00e3o. Pessoas j\u00e1 s\u00e3o patentes de grandes empresas, podemos citar grandes astros da m\u00fasica presos em contratos multimilion\u00e1rios a gravadoras e empres\u00e1rios que os comercializam como produtos sem escr\u00fapulos desde pelo menos a segunda metade do s\u00e9culo XX.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O grande problema para as empresas midi\u00e1ticas s\u00e3o que seus produtos s\u00e3o vol\u00e1teis, n\u00e3o s\u00e3o eternos e sempre precisam jogar um artista, antes o grande sucesso de vendas, no ostracismo e correr para a busca de um novo produto emergente \u201c(&#8230;)Pois a produ\u00e7\u00e3o em massa de artigos t\u00e3o imprevis\u00edveis e mut\u00e1veis quanto can\u00e7\u00f5es e artistas de sucesso ainda dependem em uma grande medida de aten\u00e7\u00e3o, adivinhamento, intui\u00e7\u00e3o, ou mera sorte\u201d (HOBSBAWM, 2023, p. 245). O sonho de todo empres\u00e1rio dono de uma empresa midi\u00e1tica, seja emissora, produtora de filmes, gravadora, ou o que quer que seja, \u00e9 achar aquele artista eterno, que nunca ficar\u00e1 fora de moda e sempre garantir\u00e1 vendas exorbitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Cris \u00e9, portanto, a mercadoria perfeita, aquela que nunca vai se desgastar com o tempo, mesmo que ele venha a morrer, pois seu legado j\u00e1 veio antes dele e j\u00e1 ajuda a engordar os bancos das igrejas h\u00e1 pelo menos dois mil\u00eanios. Cris \u00e9 a \u201cpersonalidade m\u00e1xima\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O tiro acaba saindo pela culatra, quando Cris ap\u00f3s uma s\u00e9rie de abusos e finalmente acaba presenciando a morte da pr\u00f3pria m\u00e3e, em uma situa\u00e7\u00e3o bem suspeita. Tanta exposi\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o em cima do garoto faz com que ele acabe enxergando na religi\u00e3o e na m\u00eddia a sua maldi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a partir da sua ultra-visibilidade <em>a la<\/em> estrelas mirins e adolescentes da Disney, como Miley Cyrus, Cris se rebela contra <em>seus donos<\/em> e a partir disso resolve dar um golpe na m\u00eddia, e usar sua imagem mercadol\u00f3gica para uma mensagem antimercadol\u00f3gica e antirreligiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O debate que n\u00e3o fica t\u00e3o n\u00edtido no quadrinho, quanto sua constante tentativa de se mostrar declaradamente ateu, \u00e9 como a sociedade se organiza atrav\u00e9s de seus astros e \u00eddolos. Esses que antes da difus\u00e3o midi\u00e1tica do s\u00e9culo XX se encontravam em templos, agora se encontram em programas de televis\u00e3o, filmes e <em>os templos modernos<\/em> mais conhecidos como casas de shows.<\/p>\n\n\n\n<p>O roteiro absurdo \u00e9 acompanhado por uma arte extremamente energ\u00e9tica, caracter\u00edstica de Murphy: tra\u00e7os agressivos, linhas que parecem cortes de faca sempre saltando das p\u00e1ginas, sempre muitas linhas e riscos no cen\u00e1rio, nos rostos dos personagens e olhos destacadamente expressivos. O quadrinho \u00e9 todo em preto e branco, escolha apropriada que traz um ar de quadrinho underground, ou de zines punks.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Punk Rock Jesus \u00e9 uma leitura no m\u00ednimo divertida, ainda que tenha seus trope\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>HOBSBAWM, Eric. <strong>A Hist\u00f3ria Social do Jazz<\/strong>. Editora Vozes, S\u00e3o Paulo, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>DEBORD, Guy. <strong>A Sociedade do Espet\u00e1culo<\/strong>. Contraponto, Rio de Janeiro, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>BARRACLOUGH, Geoffrey. <strong>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea<\/strong>. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 1966.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>___________________________________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:24% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"640\" src=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-549 size-full\" srcset=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus.jpeg 640w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus-300x300.jpeg 300w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus-150x150.jpeg 150w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus-600x600.jpeg 600w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus-400x400.jpeg 400w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><strong>Sobre a coluna<\/strong>: Anti-heroica \u00e9 uma coluna de opini\u00e3o e cr\u00edtica que aborda temas \u00e1cidos e provocativos dentro de obras de arte, principalmente quadrinhos e m\u00fasica, e convida o leitor a um debate fora da zona de conforto, em busca de uma reflex\u00e3o que desafia o senso de hero\u00edsmo messi\u00e2nico, a busca por respostas f\u00e1ceis e r\u00e1pidas.<br><br><strong>Matheus Monteiro<\/strong>: Historiador formado pela Universidade Estadual de S\u00e3o Paulo, morador do Cap\u00e3o Redondo, foi idealizador do 1\u00b0 PerifaCon. Realiza pesquisas na \u00e1rea de Hist\u00f3ria Cultural, com foco em quadrinhos, al\u00e9m de ser professor de dois cursinhos populares na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Instagram: @<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/o_antiheroi\/#\">o_antiheroi<\/a><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coluna Anti-Hero\u00edca Por Matheus Polito Monteiro Qual \u00e9 a mercadoria perfeita, para empresas que trabalham no meio cultural, sen\u00e3o seus artistas, seus astros de TV, cinema, m\u00fasicos, apresentadores e\u00a0a\u00ed\u00a0por\u00a0diante? 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