{"id":807,"date":"2024-10-25T07:56:53","date_gmt":"2024-10-25T10:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/?p=807"},"modified":"2024-10-25T07:58:19","modified_gmt":"2024-10-25T10:58:19","slug":"desmistificando-a-historia-unica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/2024\/10\/25\/desmistificando-a-historia-unica\/","title":{"rendered":"Desmistificando a hist\u00f3ria \u00fanica"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/IMG_3783-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-808\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foto: Tiani Silvestre. Hist\u00f3ria \u00danica na Literatura<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:#cf2e2e\" class=\"has-inline-color\">Coluna Ombala<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por Silvia Mungongo <\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o que sabemos sobre as outras pessoas? Como criamos a imagem que temos de cada povo? Feche os olhos e imagine como \u00e9 o continente africano ou algum estado do Nordeste. Qual foi o resultado?<\/p>\n\n\n\n<p>Constru\u00edmos o nosso conhecimento a partir das hist\u00f3rias que escutamos, sejam elas escritas em livros, programas de televis\u00e3o ou jornais, e se n\u00e3o prestarmos aten\u00e7\u00e3o e formos atr\u00e1s de um n\u00famero maior de narrativas diversas, mais completas sobre determinados assuntos, corremos o risco de criar estere\u00f3tipos que muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o reais (Adichie, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso papo de hoje \u00e9 baseado no pensamento da escritora Chimamanda Ngozi Adichie, que nasceu em Enugu, na Nig\u00e9ria, em 1977. \u00c9 autora dos romances Meio sol amarelo (2008), Hibisco roxo (2011) e Americanah (2014), al\u00e9m da cole\u00e7\u00e3o de contos. Sua obra foi traduzida para mais de trinta l\u00ednguas. \u00c9 um dos maiores nomes do feminismo e da literatura em \u00c1frica. E n\u00e3o posso deixar de dizer que ela \u00e9 uma das figuras que me faz ter orgulho de ser africana. \u00c9 um privil\u00e9gio viver no seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Chimamanda diz que para se ter uma \u00fanica hist\u00f3ria sobre um povo, \u00e9 s\u00f3 mostr\u00e1-lo como uma \u00fanica coisa repetidas vezes e com o tempo \u00e9 s\u00f3 isso que eles se tornar\u00e3o nessa narrativa. O problema n\u00e3o \u00e9 o fato de estarem errados, mas de estarem incompletos, superficiais e negligenciar todas as outras narrativas que formam um lugar ou pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegar toda a complexidade de uma pessoa e de seu contexto e reduzi-los a um s\u00f3 aspecto \u00e9 o que Chimamanda chama de o perigo da hist\u00f3ria \u00fanica. Quantas vezes j\u00e1 ouvimos que os \u00e1rabes ou mu\u00e7ulmanos s\u00e3o perigosos\/terroristas? Uma narrativa que se fortaleceu sobretudo ap\u00f3s os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos e que foi bastante difundida pela m\u00eddia. Provavelmente voc\u00ea j\u00e1 ouviu coisas como \u201cnordestinos s\u00e3o pregui\u00e7osos e pobres coitados\u201d, \u201ctodo mundo de quebrada \u00e9 ladr\u00e3o\u201d, ind\u00edgenas e africanos s\u00e3o incivilizados\u201d&#8230; Ali\u00e1s foi essa \u00faltima ideia absurda que originou o racismo e a coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de \u00c1frica, este parece ser o lugar mais injusti\u00e7ado na hist\u00f3ria mundial. V\u00edtima de epistemic\u00eddio _ apagamento na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento _, invisibiliza\u00e7\u00e3o e preconceitos de todas as naturezas. H\u00e1 quase dois anos morando no Brasil, voc\u00eas n\u00e3o imaginam os absurdos que j\u00e1 ouvi. S\u00e3o perguntas como: Voc\u00ea convive com le\u00f5es? Como s\u00e3o as casas l\u00e1? Como aprendeste portugu\u00eas t\u00e3o r\u00e1pido? Como voc\u00ea chegou ao Brasil? Eu disse que a nado (risos)&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, uma senhora me parou e, com sentimento de pena, quase me chamando de coitada, disse que achava o meu povo &#8220;guerreiro&#8221;, pois apesar da fome estamos sempre a rir e a dan\u00e7ar. Eu disse-lhe que n\u00e3o sabia dan\u00e7ar e que a realidade do continente \u00e9 diversa&#8230; n\u00e3o achei oportuno aprofundar o assunto.&nbsp;S\u00e3o discursos como estes que me fazem pensar sobre o quanto de desinforma\u00e7\u00e3o ainda temos sobre quem nos \u00e9 o \u201coutro\u201d. Precisamos saber de tudo? N\u00e3o, apenas o m\u00ednimo e n\u00e3o fomentar discursos preconceituosos. Um outro amigo perguntou como era a realidade econ\u00f4mica e social no meu pa\u00eds. Fiquei feliz, pois ele me colocou como protagonista na hist\u00f3ria. Certamente j\u00e1 ouviu v\u00e1rias coisas sobre um&nbsp;dos 54 pa\u00edses de \u00c1frica, mas ele quis ouvir o lado de quem vem de l\u00e1, de quem vive a realidade. \u00c9 assim que podemos desconstruir estere\u00f3tipos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Angola, assistimos a alguns programas sobre criminalidade no Brasil. Quando eu disse que viria para c\u00e1, meus av\u00f3s ficaram apreensivos e chegaram a dizer para eu n\u00e3o vir, pois tiveram apenas contato com um lado da hist\u00f3ria, e ainda cheia de sensacionalismo. \u00c9 o que aquela m\u00eddia queria que soub\u00e9ssemos sobre o Brasil. Se eu n\u00e3o fosse atr\u00e1s de outras narrativas, muito provavelmente n\u00e3o teria embarcado naquele avi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, Chimamanda destaca o poder das hist\u00f3rias. \u201cHist\u00f3rias t\u00eam sido usadas para expropriar e tornar maligno. Mas hist\u00f3rias podem tamb\u00e9m ser usadas para capacitar e humanizar\u201d. \u201cHist\u00f3rias podem destruir a dignidade de um povo, mas tamb\u00e9m podem reparar essa dignidade perdida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E a escola tem papel fundamental neste processo. Tem o desafio de ajudar o(a) estudante a enxergar o mundo com alteridade, a tirar estere\u00f3tipos sobre qualquer realidade ou povo. Neste sentido, compartilho uma experi\u00eancia que me \u00e9 muito pr\u00f3xima e feliz. O Col\u00e9gio Franciscano Santa Isabel, da quebrada do Jardim S\u00e3o Lu\u00eds, desenvolveu um projeto de escrita criativa, designado&nbsp;<strong>\u201c<\/strong><strong>Protagonizando a nossa hist\u00f3ria: desmistificando a hist\u00f3ria \u00fanica\u201d<\/strong>,baseado justamente no livro desta grande escritora.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto visou proporcionar aos(\u00e0s) estudantes, do Fundamental ao Ensino M\u00e9dio, momentos de reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de se adquirir o h\u00e1bito de ler e escrever, assim como despertar neles a sensibilidade art\u00edstica, destacando que todos(as) podemos ser protagonistas de nossas hist\u00f3rias, seja ela contada a partir de textos acad\u00eamicos, livros de fantasia\/romance\/fic\u00e7\u00e3o\/poesia ou hist\u00f3rias em quadrinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia foi permitir que eles(as) contassem suas hist\u00f3rias e se sentissem parte da sociedade independente da sua realidade e experi\u00eancias, mas que tamb\u00e9m aprendessem sobre outras hist\u00f3rias, de uma forma mais criativa, e sem deixar de ver que existe uma diversidade de hist\u00f3rias e todas importam. Assim, foram produzidos textos nos v\u00e1rios g\u00eaneros liter\u00e1rios, que refletem suas viv\u00eancias e experi\u00eancias do mundo ao seu redor, bem como relatos sobre os estere\u00f3tipos constru\u00eddos em torno de quem mora na periferia. O resultado final foi a produ\u00e7\u00e3o de livros feitos artesanalmente junto com a bibliotec\u00e1ria. O projeto mobilizou professores(as) de L\u00edngua Portuguesa, Artes e a \u00e1rea de Pastoral.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma hist\u00f3ria \u00fanica. 1. ed. [S. l.]: Companhia das Letras, 2019. 64 p. ISBN 8535932534. ALVES, Iulo Almeida;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8216;TEIXEIRA,&nbsp;Tiani Silvestre. Hist\u00f3ria \u00danica na Literatura.&nbsp;<strong>Centro Universit\u00e1rio Belas Artes<\/strong>&nbsp;\u2013 BA. Trabalho de conclus\u00e3o do curso de produ\u00e7\u00e3o cultural e curadoria de conte\u00fado, Bahia, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>__________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:18% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"831\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1-831x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-594 size-full\" srcset=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1-831x1024.jpg 831w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1-243x300.jpg 243w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1-768x947.jpg 768w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1.jpg 1170w\" sizes=\"(max-width: 831px) 100vw, 831px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><strong>Silvia&nbsp;Mungongo<\/strong>: natural de Luanda, Angola, atualmente residente na cidade de S\u00e3o Paulo, \u00e9 soci\u00f3loga, ativista, poeta e jornalista. Profissional de comunica\u00e7\u00e3o com s\u00f3lida experi\u00eancia em reda\u00e7\u00e3o, locu\u00e7\u00e3o, reportagem e edi\u00e7\u00e3o. Atuou em diversas plataformas, como r\u00e1dio, televis\u00e3o e m\u00eddia digital, desenvolvendo e apresentando conte\u00fados informativos e engajadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobre a coluna:<\/strong>&nbsp;Ombala \u00e9 uma palavra na l\u00edngua angolana&nbsp;Umbundu, que significa capital ou sede. Portanto, um lugar de encontros e reencontros e onde normalmente residem Reis e Rainhas. A coluna pretende ser um espa\u00e7o de reencontro da cultura africana, seus fazedores e sua abrang\u00eancia na di\u00e1spora. Ser\u00e1 um prazer ter-vos por aqui.&nbsp;Ngasakidila!<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Tiani Silvestre. Hist\u00f3ria \u00danica na Literatura Coluna Ombala Por Silvia Mungongo Afinal, o que sabemos sobre as outras pessoas? Como criamos a imagem que temos de cada povo? 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