{"id":781,"date":"2024-10-18T11:56:53","date_gmt":"2024-10-18T14:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/?p=781"},"modified":"2025-05-20T13:42:03","modified_gmt":"2025-05-20T16:42:03","slug":"o-medo-da-heranca-maldita-ou-o-desespero-hereditario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/2024\/10\/18\/o-medo-da-heranca-maldita-ou-o-desespero-hereditario\/","title":{"rendered":"O medo da heran\u00e7a maldita, ou o desespero heredit\u00e1rio."},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" data-id=\"782\" src=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/18.10_Credito-Pedro-Okuyama-1-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-782\"\/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o Pedro Okuyama (@<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/pedro_okuyama?igsh=MTFzY2oxM2ZnMnU2eQ%3D%3D#\">pedro_okuyama<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">Coluna Anti-her\u00f3ica<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p><br>Por Matheus Monteiro<\/p>\n\n\n\n<p>Desde pelo menos 2015 um tema recorrente vem aparecendo nos filmes de terror: a amea\u00e7a das \u201cpessoas mais velhas\u201d, sejam pessoas idosas ou m\u00e3es e pais. Essas amea\u00e7as podem vir por meio de heran\u00e7a, como em <em>Heredit\u00e1rio <\/em>(<em>Hereditary, 2018<\/em>), ou tentativa de tomar a vida dos mais jovens, como em <em>A Av\u00f3<\/em> <em>(Abuela, 2021<\/em>), ou at\u00e9 mesmo como uma amea\u00e7a direta como em <em>A Morte do Dem\u00f4nio: A Ascen\u00e7\u00e3o<\/em> (<em>Evil Dead Rise, 2023<\/em>), <em>Fuja <\/em>(<em>Run<\/em>, <em>2020<\/em>), ou <em>Lar dos Esquecidos <\/em>(<em>Old People<\/em>, <em>2020<\/em>).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa tem\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 algo novo no terror, por\u00e9m me parece existir um movimento, talvez at\u00e9 inconsciente, em torno dela, que se tornou recorrente. Um movimento, quase antag\u00f4nico ao movimento de filmes de terror sobre crian\u00e7as amaldi\u00e7oadas do s\u00e9culo passado \u2013 <em>O Exorcista, 1973; O Beb\u00ea de Rosemary, 1968; A Profecia, 1976; Carrie, a Estranha, 1976, <\/em>entre outros \u2013 que evidenciava um certo <em>\u201cmedo geracional<\/em>\u201d: uma gera\u00e7\u00e3o mais velha com medo do que a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o poderia fazer com o mundo, o grande perigo dos jovens contraventores, hippies, punks, militantes entre outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O medo transmitido nos novos filmes de terror ainda \u00e9 um medo geracional, mas n\u00e3o mais o medo do \u201c<em>futuro<\/em>\u201d, do que as novas gera\u00e7\u00f5es poder\u00e3o fazer com o mundo, e sim um medo do \u201c<em>passado<\/em>\u201d, da heran\u00e7a deixada pelas gera\u00e7\u00f5es anteriores, o que elas j\u00e1 fizeram com o mundo. O medo do s\u00e9culo XX era sobre o futuro, sobre o que poderia acontecer \u2013 bombardeio de bombas at\u00f4micas durante a Guerra Fria, o medo da Revolu\u00e7\u00e3o Social promovida pela juventude, o medo do amanh\u00e3 \u2013, esse medo ainda existe, mas n\u00e3o mais do que poderia acontecer, mas do que j\u00e1 est\u00e1 acontecendo em decorr\u00eancia do passado, como o desastre ambiental iminente. O futuro \u00e9 incerto, mas \u00e9 certo que sua decad\u00eancia foi concedida pelos atos das antigas gera\u00e7\u00f5es que deram uma sociedade \u00e0 beira do colapso de heran\u00e7a aos seus filhos. Agora, os pais que deveriam ser a prote\u00e7\u00e3o e exemplo da fam\u00edlia se tornam a sua maior amea\u00e7a, como <em>A Morte do Dem\u00f4nio: A Ascens\u00e3o<\/em> (2023).<\/p>\n\n\n\n<p>Filmes como <em>Heredit\u00e1rio<\/em> (2018), abordam justamente essa perspectiva da heran\u00e7a amaldi\u00e7oada, e sem escapat\u00f3ria deixada pela antiga gera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 outros filmes como <em>A Visita <\/em>(<em>The Visit, 2015<\/em>), <em>A Av\u00f3 <\/em>(2021), e <em>Lar dos Esquecidos <\/em>(2020) abordam a dicotomia do afastamento entre as gera\u00e7\u00f5es. Em situa\u00e7\u00f5es de abandono os mais velhos recorrem a for\u00e7as ocultas para se manterem vivos, e assim se tornam uma amea\u00e7a \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, que os abandonaram em casas de repouso, ou esqueceram sua exist\u00eancia. Em <em>A Av\u00f3<\/em>, a matriarca da fam\u00edlia rouba a vida de sua neta, em <em>Lar dos Esquecidos <\/em>os idosos trancados em casas de repouso come\u00e7am um levante que culmina em um massacre, em <em>A Visita<\/em> os idosos s\u00e3o o palco de um document\u00e1rio e quando revelam o que haviam feito e no cl\u00edmax do filme, se tornam a amea\u00e7a aos seus netos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em momentos como o acontecimento do 8 de janeiro de 2023, sarcasticamente apelidado por algumas pessoas de \u201cIntentona Geri\u00e1trica\u201d e parece que esses filmes acertam bem na tens\u00e3o geracional que vivemos. Existe uma grande dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o entre duas gera\u00e7\u00f5es: uma que sempre temeu os atos radicais e mudan\u00e7as promovida pelo novo, e o novo que tem rancor e vai culpar o velho pelo mundo que herdou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Longe de etarismo, o di\u00e1logo entre gera\u00e7\u00f5es realmente n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil,. Eu como professor jovem em dois cursinhos populares sinto dificuldade em me comunicar com meus alunos, que teoricamente seriam da mesma gera\u00e7\u00e3o que sou. Outra atitude \u00e9 o abandono dos mais velhos, mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o jogados em asilos. \u00c9 muito f\u00e1cil ignorar quando seu av\u00f4 chega com uma Fake News para te mostrar, e voc\u00ea s\u00f3 ignora e deixa de dialogar. Por outro lado, pessoas mais velhas possuem dificuldade em aceitar os erros e mudar seus pensamentos enraizados, e a cultura de tratar os mais velhos como crian\u00e7as n\u00e3o ajuda muito na constru\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos assumir que o fascismo cresce somente entre os mais velhos, n\u00facleos e movimentos nazistas vem crescendo entre comunidades de jovens (<a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/ciencias\/ciencias-humanas\/pesquisa-investiga-ativismo-de-jovens-em-movimentos-de-extrema-direita-no-brasil-e-na-alemanha\/\">https:\/\/jornal.usp.br\/ciencias\/ciencias-humanas\/pesquisa-investiga-ativismo-de-jovens-em-movimentos-de-extrema-direita-no-brasil-e-na-alemanha\/<\/a>), talvez por causa de um passado idealizado, um conservadorismo que leva \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o. O medo do amanh\u00e3 ainda \u00e9 o que rege o mundo, medo que leva ao ressentimento, que por consequ\u00eancia leva \u00e0 raiva, e cabe as produ\u00e7\u00f5es culturais a demonstrarem, expor e nos fazer refletir sobre esses medos e nossas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-group is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:18% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"640\" src=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-549 size-full\" srcset=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus.jpeg 640w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus-300x300.jpeg 300w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus-150x150.jpeg 150w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus-600x600.jpeg 600w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Matheus-400x400.jpeg 400w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobre a coluna<\/strong>: Anti-heroica \u00e9 uma coluna de opini\u00e3o e cr\u00edtica que aborda temas \u00e1cidos e provocativos dentro de obras de arte, principalmente quadrinhos e m\u00fasica, e convida o leitor a um debate fora da zona de conforto, em busca de uma reflex\u00e3o que desafia o senso de hero\u00edsmo messi\u00e2nico, a busca por respostas f\u00e1ceis e r\u00e1pidas.<br><br><strong>Matheus Monteiro<\/strong>: Historiador formado pela Universidade Estadual de S\u00e3o Paulo, morador do Cap\u00e3o Redondo, foi idealizador do 1\u00b0 PerifaCon. Realiza pesquisas na \u00e1rea de Hist\u00f3ria Cultural, com foco em quadrinhos, al\u00e9m de ser professor de dois cursinhos populares na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Instagram: @<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/o_antiheroi\/#\">o_antiheroi<\/a><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ilustra\u00e7\u00e3o Pedro Okuyama (@pedro_okuyama) Coluna Anti-her\u00f3ica Por Matheus Monteiro Desde pelo menos 2015 um tema recorrente vem aparecendo nos filmes de terror: a amea\u00e7a das \u201cpessoas mais velhas\u201d, sejam pessoas idosas ou m\u00e3es e pais. 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