{"id":1525,"date":"2025-10-20T13:52:59","date_gmt":"2025-10-20T16:52:59","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/?p=1525"},"modified":"2026-02-19T15:04:04","modified_gmt":"2026-02-19T18:04:04","slug":"afinal-a-morte-e-mesmo-o-fim-o-que-as-culturas-africanas-nos-ensinam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/2025\/10\/20\/afinal-a-morte-e-mesmo-o-fim-o-que-as-culturas-africanas-nos-ensinam\/","title":{"rendered":"Afinal, a morte \u00e9 mesmo o fim? O que as culturas africanas nos ensinam?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><mark style=\"background-color:#fcb900\" class=\"has-inline-color\">Coluna Ombala <\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por Silvia Mungongo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Quando falamos de morte, quase sempre pensamos em fim. Foi assim que me ensinaram tamb\u00e9m: morreu, acabou. Mas essa ideia n\u00e3o \u00e9 uma verdade absoluta. Em muitas culturas africanas tradicionais, a morte n\u00e3o representa o fim da exist\u00eancia, e sim a passagem para outra etapa da vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O te\u00f3logo africano John Mbiti (1969) dizia que a vida continua depois da morte, s\u00f3 que em outro plano. A pessoa n\u00e3o desaparece \u2014 apenas muda de lugar. Sai do mundo f\u00edsico e passa a viver no invis\u00edvel, onde continua presente de uma forma diferente. Essa maneira de entender a vida e a morte \u00e9 muito diferente do pensamento ocidental, onde tudo \u00e9 dividido em \u201cvivo\u201d ou \u201cmorto\u201d, \u201cpresente\u201d ou \u201causente\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Na cultura em que cresci, especialmente em comunidades como a do povo Tshivenda, do norte da \u00c1frica do Sul, a morte \u00e9 vista como o in\u00edcio de uma conex\u00e3o ainda mais profunda com tudo o que existe. A pessoa falecida se torna um ancestral. E os ancestrais n\u00e3o s\u00e3o fantasmas, nem est\u00e3o distantes \u2014 s\u00e3o guias espirituais, fontes de sabedoria e prote\u00e7\u00e3o, que continuam participando do nosso cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Na minha viv\u00eancia, lembrar de quem j\u00e1 partiu vai al\u00e9m da saudade. \u00c9 tamb\u00e9m respeito, cuidado, f\u00e9. Quem morre n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 lembrado em hist\u00f3rias ou fotografias. Continuamos fazendo parte da nossa caminhada. Como diz Setsibe (2012), os mortos se tornam uma extens\u00e3o dos vivos. Eles n\u00e3o deixaram de existir \u2014 s\u00f3 mudaram de forma.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o muda completamente a maneira como eu lido com a morte. A dor da perda n\u00e3o desaparece, claro. Ela existe e machuca. Mas quando acredito que aquela pessoa ainda est\u00e1 presente de alguma forma, tudo muda. O luto ganha outro significado. Os v\u00ednculos continuam vivos. E at\u00e9 a vida ganha um novo sentido.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Lembra daqueles v\u00eddeos de funerais animados que circularam nas redes sociais, especialmente na \u00e9poca da pandemia? Muita gente achou estranho. Mas aquilo reflete os rituais de algumas comunidades africanas, onde a morte n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tristeza \u2014 \u00e9 tamb\u00e9m celebra\u00e7\u00e3o. Para muitos de n\u00f3s, povos de origem africana, a pessoa que partiu n\u00e3o desapareceu. Ela apenas foi para um lugar onde n\u00e3o existe dor, nem sofrimento. E continua viva \u2014 em n\u00f3s, com a gente.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante dizer: esses saberes ancestrais, que chegaram ao Brasil com os povos escravizados, muitas vezes s\u00e3o tratados como supersti\u00e7\u00e3o ou ignor\u00e2ncia. Mas n\u00e3o s\u00e3o. S\u00e3o filosofia, espiritualidade, resist\u00eancia. S\u00e3o outra forma de ver e viver o mundo \u2014 mais conectada, mais coletiva, mais espiritual. Talvez, num pa\u00eds como o Brasil, onde a desigualdade interrompe vidas cedo demais, especialmente nas periferias, seja urgente resgatar essas vis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Porque elas nos ensinam que ningu\u00e9m some por completo. Que existe continuidade. Que, mesmo depois da morte, seguimos juntos. A pessoa continua existindo por inteiro, com um novo corpo, num mundo muito parecido com o nosso \u2014 s\u00f3 que sem dor, sem fome, sem sofrimento. Esse outro lado n\u00e3o \u00e9 c\u00e9u nem inferno. \u00c9 a vida que continua, de outra forma. E mais do que pensar no \u201cdepois\u201d, a nossa espiritualidade valoriza o agora. Como dizia Mbiti (1969), o foco est\u00e1 em viver bem aqui e agora, mantendo os la\u00e7os com a comunidade e com os ancestrais.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Essa forma de enxergar a morte me trouxe um certo al\u00edvio. Ela n\u00e3o \u00e9 o fim. \u00c9 parte do ciclo da exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, perdi uma amiga muito especial. Fiquei profundamente abalada. Custei a acreditar. Senti revolta. Mas aos poucos, fui me lembrando do que aprendi com minha cultura, com minha ancestralidade. E isso me ajudou a respirar. Hoje, sinto a presen\u00e7a dela comigo todos os dias. Entendi que ela se tornou minha ancestral. Ela fez a travessia para um lugar onde a dor n\u00e3o existe mais \u2014 e foi justamente a dor que a tirou de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea est\u00e1 vivendo o luto, saiba que eu n\u00e3o escrevo isso para minimizar sua dor. Muito pelo contr\u00e1rio. Escrevo para compartilhar um pouco de esperan\u00e7a. O luto \u00e9 cheio de perguntas, de sil\u00eancios, de dias nublados. E, mesmo sendo algo comum, nunca estamos realmente prontos para perder algu\u00e9m que amamos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>D\u00f3i dizer adeus. D\u00f3i imaginar que talvez a partida pudesse ter sido evitada. Mas lembre-se: a morte n\u00e3o apaga a exist\u00eancia. Ela transforma. E mesmo depois da despedida, o amor continua.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Para Teodora Marques.<\/p>\n\n\n\n<p><em>In memoriam.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Bastide, S. 1968. Religi\u00f5es africanas e estruturas des civiliza\u00e7\u00f5es.\u00a0Presen\u00e7a Africaine\u00a0, (1):66\u201378.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Dlukulu, PM 2010. Vi\u00favas Negras Urbanas: Suas experi\u00eancias e enfrentamento  do luto em uma sociedade em transi\u00e7\u00e3o. Tese de Doutorado n\u00e3o publicada,<br><\/p>\n\n\n\n<p>Universidade de Pret\u00f3ria, Pret\u00f3ria: \u00c1frica do Sul. Pret\u00f3ria: University of Pretoria Press.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Mbiti, J. 1969.&nbsp;Religi\u00f5es e filosofia africanas&nbsp;. Londres: Heinemann, 1969.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/medium.com\/@erichrickens\/an-african-perspective-on-death-fbc713f11613\">https:\/\/medium.com\/@erichrickens\/an-african-perspective-on-death-fbc713f11613<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>__________________<br><br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:20% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"831\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1-831x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-594 size-full\" srcset=\"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1-831x1024.jpg 831w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1-243x300.jpg 243w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1-768x947.jpg 768w, https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Silvia1.jpg 1170w\" sizes=\"(max-width: 831px) 100vw, 831px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><strong>Silvia&nbsp;Mungongo<\/strong>: natural de Luanda, Angola, atualmente residente na cidade de S\u00e3o Paulo, \u00e9 soci\u00f3loga, ativista, poeta e jornalista. Profissional de comunica\u00e7\u00e3o com s\u00f3lida experi\u00eancia em reda\u00e7\u00e3o, locu\u00e7\u00e3o, reportagem e edi\u00e7\u00e3o. Atuou em diversas plataformas, como r\u00e1dio, televis\u00e3o e m\u00eddia digital, desenvolvendo e apresentando conte\u00fados informativos e engajadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobre a coluna:<\/strong>&nbsp;Ombala \u00e9 uma palavra na l\u00edngua angolana&nbsp;Umbundu, que significa capital ou sede. Portanto, um lugar de encontros e reencontros e onde normalmente residem Reis e Rainhas. A coluna pretende ser um espa\u00e7o de reencontro da cultura africana, seus fazedores e sua abrang\u00eancia na di\u00e1spora. Ser\u00e1 um prazer ter-vos por aqui.&nbsp;Ngasakidila!<\/p>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coluna Ombala Por Silvia Mungongo Quando falamos de morte, quase sempre pensamos em fim. Foi assim que me ensinaram tamb\u00e9m: morreu, acabou. Mas essa ideia n\u00e3o \u00e9 uma verdade absoluta. Em muitas culturas africanas tradicionais, a morte n\u00e3o representa o fim da exist\u00eancia, e sim a passagem para outra etapa da vida.&nbsp; O te\u00f3logo africano [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":1527,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sb_editor_width":"","footnotes":""},"categories":[28,20],"tags":[23],"class_list":["post-1525","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ombala","category-opiniao","tag-territorio-da-noticia"],"relative_dates":{"created":"6 meses ago","modified":"2 meses ago"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1525","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1525"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1525\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1528,"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1525\/revisions\/1528"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1527"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo.mandanoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}